Nota: Este conto contém referências a Um Cão no Palácio Fúcsia, O Assassino dos Dedos dos Pés e Kukunoko. Recomendo que leias essas histórias primeiro.
© 2025 Rui Péricles. Todos os direitos reservados
Estendi o braço e encostei o ferro em brasa ao peito do meu melhor amigo.
A palavra TRAIDOR fervilhou na pele do Horácio. Um gemido escapou-lhe por entre os dentes cerrados. O cheiro a carne queimada impregnou-me as narinas.
A Rafa e o Rafa, dois aspirantes a hippie com rastas no cabelo e camisolas tie-dye garridas que seriam o pesadelo de um daltónico, seguraram-lhe os braços, aparentemente inabalados com o sofrimento do amigo.
O Horácio estava ajoelhado na carpete que acumulava pó de várias décadas, e agora as lágrimas dele também. Soltei o ferro em brasa ao lado da lareira onde o tinha acendido. Caiu na tijoleira com um estrépito.
Eu não queria fazê-lo. Mas, nesta irmandade, há regras, e o Horácio quebrou-as. O Horácio sabia perfeitamente que não usamos tecnologia desenvolvida após os anos 80. Porque o presente é tóxico. Os anos 80 foram a melhor década de sempre, na minha humilde mas correta opinião, e eu decidi perpetuá-los no interior desta relojoaria onde vivemos.
A Relojoaria do Óscar fica no fundo de um beco perto da baixa de Náutila. Pertencia ao meu avô Óscar, mas foi à falência porque, com um telemóvel, quem precisava de relógios? Isso deu um sabor extra e pessoal à minha amargura - a ruína do negócio do meu avô, tudo porque a civilização decidiu criar um aparelho que reúne inúmeras funções e que mantém as pessoas a olhar para um ecrã ininterruptamente, como se esse ecrã contivesse as respostas para os mistérios milenares do universo.
Para mim, a gota de água foi os vídeos de curta duração numa certa app. A partir do momento em que começaram a causar défice de atenção nas pessoas, que prontamente ficaram viciadas na gratificação instantânea proporcionada por estes vídeos, eu rapidamente previ o futuro: ou abdicávamos desta tecnologia ou iríamos apodrecer os nossos cérebros muito rapidamente.
Então, reuni três pessoas que pensavam da mesma forma como eu (talvez eu os tenha incentivado um pouco, e, sim, aceito a nomenclatura de líder de seita se ma quiserem dar), e mudámo-nos para a relojoaria abandonada.
É um estilo de vida bacano. Todas as noites, vemos um filme dos anos 80. O meu preferido é Videodrome, realizado pelo David Cronenberg. Durante o dia, lemos livros e ouvimos discos de vinil antigos e dançamos. Também fazemos a ocasional orgia. Sou um grande fã do hedonismo.
Nenhum de nós tem autorização para usar um telemóvel - estão completamente banidos na relojoaria. Foi isso que o Horácio fez. Esta noite, enquanto revíamos a cassete de Videodrome pela vigésima vez, ouvi um zumbido vindo do bolso das calças dele. Uma vibração antinatural que emanava das profundezas da algibeira bojuda contra a perna do Horácio.
Ele tinha uma explicação para dar, mas primeiro tive de lhe infligir um castigo. Aqui, se quebras as regras, primeiro sofres, depois explicas.
Olhei para a palavra TRAIDOR cauterizada no peito dele. Não senti nada.
O Horácio pôs-se de pé, trémulo. O Rafa e a Rafa sentaram-se no sofá puído, atrás dele. O silêncio era apenas quebrado pelo tiquetaque dos muitos relógios espalhados pela sala.
- Sim, usei um telemóvel - confessou o Horácio desnecessariamente, vestindo de novo a camisa bege que tinha estado frouxa e amarrotada no chão como uma coisa morta. - Mas tive um bom motivo.
Aguardei que ele se justificasse. O meu rosto estava fixo e inexpressivo como se fosse feito de pedra.
- Pesquisei na Internet um feitiço para voltarmos atrás no tempo - disse ele. Estava um bocadinho ofegante. - Para vivermos na década de 80, em vez de a recriarmos.
Aquilo espicaçou o meu interesse. As minhas sobrancelhas deram um salto intrigado. Esperei que ele continuasse.
- Requer um relógio de pêndulo - disse ele. - Como aquele que está na cave.
Lambi os lábios perante a saborosa proposta que ele me apresentava.
- Imagina - disse ele. Torcia agora as mãos nervosamente uma na outra. - Viver num mundo sem inteligência artificial. Sem aplicações e redes sociais que corrompem as pessoas. Num mundo em que as pessoas de facto interagem umas com as outras, convivem, socializam, pessoalmente, não separadas por um ecrã. Não queres isso, Xavier?
O Xavier sou eu. E sim, eu queria muito isso. No entanto, feitiços complexos como este, que envolvem viagens no tempo, são perigosos. E rapidamente descarrilam se o ritual não for bem realizado.
- Foi a única razão para eu ter usado o telemóvel - disse o Horácio. - Perdoa-me, Xavier.
Fiz um aceno clemente com a cabeça.
- Vamos para a cave - disse. Acenei aos outros para nos seguirem.
O Horácio desceu as escadas à minha frente. Atrás de mim, o Rafa e a Rafa marcharam pelos degraus abaixo, os nossos passos a ressoar na madeira - baque baque baquetibaque.
Aviso-vos já: esta história vai a sítios negros e, se não quiserem visitá-los, aconselho-vos a subirem a escada e saírem da relojoaria. As coisas estão prestes a ficar muito maradas. Não digam que não vos avisei.
Se ainda estão a ler, escolheram estar aqui na cave connosco, neste momento.
Esta cave onde nos encontramos é húmida. Uma única janela está ao nível do passeio lá fora, e a chuva infiltra-se pela madeira apodrecida do caixilho. Não há nada nesta cave, exceto um único relógio de pêndulo no centro. Está coberto de pó e teias de aranha.
O relógio é uma antiguidade dos anos 30, e a posse mais estimada do meu falecido avô. Recusava-se a vendê-lo. É feito de madeira de mogno, polida e envernizada pelas mãos de artesãos devotos ao seu ofício. O ponteiro dos minutos e o ponteiro das horas estavam ambos no 6, marcando eternamente 66.
Toquei na madeira, e senti os ecos de décadas passadas a eletrizarem-me os dedos. Estremeci.
O Horácio colocou-se ao lado do relógio e encarou-nos. Empurrou os óculos para cima no nariz afilado. As lentes dos óculos estavam cheias de dedadas. O cabelo revolto e seboso dele assentava-lhe em cima da cabeça como uma peruca rasca da loja dos trezentos. A camisa bege dava-lhe um ar pateticamente pouco notável.
Eu gosto dele. É o meu melhor amigo. Se nos basearmos apenas no aspeto dele, diríamos que é um falhado. A cara do Horácio está a implorar por uns socos - os meus nós dos dedos comicham quando olho para ele. Mas o cérebro que se esconde por trás daquela cara de totó... aquele cérebro está recheado de um intelecto suculento. Eu adorava espremê-lo e beber cada gota do sumo que se desprendesse dos neurónios dele.
Eu sou um pouco mais apresentável do que o Horácio. O meu cabelo é do tom mais escuro que se pode imaginar, como se alguém me tivesse despejado alcatrão ou azeviche na cabeça. Não é muito curto, nem muito comprido. Os meus olhos são escuros também. Os meus lábios são finos, e nunca sorriem. A não ser quando revejo Videodrome.
O Horácio esfregou as mãos pálidas uma na outra.
- Ora bem - disse ele. - Este feitiço serve para invocar Cronos.
- Cronos? - disse o Rafa. Meneou a cabeça, confuso, e uma das suas rastas saracoteou-se como uma cobra flácida. - O titã da mitologia grega?
- Não, Cronos, a personificação do tempo - elucidou o Horácio. - As pessoas confundem-nos muito.
- Porque será? - resmoneou a Rafa.
- O que temos de fazer em primeiro lugar - continuou o Horácio, que parecia ter conquistado a confiança de um professor universitário a dar uma palestra - é pegar no ponteiro dos minutos deste relógio e usá-lo para gravar a data para onde pretendemos viajar no antebraço esquerdo.
A Rafa estremeceu perante a ideia de sangue. As rastas tremelicaram.
O Horácio descalçou a sua bota pesada de couro, levantou-a na direção do mostrador do relógio, e virou o calcanhar para o vidro. Depois, cravou-a com força no mesmo, fechando os olhos e encolhendo-se.
O vidro estilhaçou-se em milhões de pedacinhos que caíram no chão a retinir, deixando os ponteiros ao alcance da mão de Horácio. Ele arrancou o ponteiro dos minutos com um estalido e começou a arranhá-lo na pele vulnerável do antebraço.
- Vamos para... doze de dezembro de 1984 - disse, com um esgar de dor enquanto a data começava a brilhar em tons vermelhos na sua pele. Gotas de sangue começaram a escorrer para o chão. - É o meu aniversário. Apesar de só ter nascido vinte anos mais tarde. Mesmo assim, podem pagar-me uma bebida.
- Como? - perguntou o Rafa. - Temos euros. Na altura, usavam-se escudos.
- Não faças perguntas complicadas - disse o Horácio. - Toma.
Estendeu o ponteiro ensanguentado aos outros, e eles cravaram-no nos respetivos antebraços, esboçando a data 12/12/1984 em formas irregulares.
- E agora? - perguntei. Estava ansioso pelo resto.
- Agora - disse o Horácio - temos de chamar Cronos, o Senhor dos Éons. - Repetimos o nome. Uma vez. Duas vezes. Três. Cada vez mais alto. - E agora - disse o Horácio - entoamos o seguinte cântico: Era uma vez um herói que queria deixar esta era.
- Era uma vez um herói que queria deixar esta era...
- Mais alto!
- Era uma vez um herói que QUERIA DEIXAR ESTA ERA!
- Ele não vai ouvir-nos!
- ERA UMA VEZ UM HERÓI QUE QUERIA DEIXAR ESTA ERA! ERA UMA VEZ UM HERÓI QUE QUERIA DEIXAR ESTA ERA! ERA UMA VEZ UM HERÓI QUE QUERIA DEIXAR...
A madeira do relógio estalou alto. E depois fez mais do que estalar. Chiou, rangeu, gemeu... e duas protuberâncias começaram a crescer de cada lado. Mais pontiagudas, a crescer, a crescer, como o nariz do Pinóquio, exceto que isto não era madeira de pinho, e muito menos um nariz, mas sim madeira de mogno que agora formava um par de braços.
Um par de braços que terminavam em cinco dedos grosseiros de madeira, a abrir e a fechar. Dois buracos abriram-se no mostrador do relógio, e por baixo deles, uma cavidade oblonga. E foi então que uma voz possante saiu daquela cavidade.
- Egṓ eimí ho Krónos! - rugiu o relógio que, supus, estava agora possuído por Cronos. Depois, pigarreou e tossiu. - Ah, certo, estamos em Portugal, não vão perceber grego antigo... Eu sou Cronos, o Senhor dos Éons, e a manifestação do meu ser apenas é possível através de relógios!
O Horácio bateu palmas e fez uma vénia.
Constrangedor.
- Com que então querem voltar atrás no tempo - disse o relógio, pondo as mãos no que seria a sua cintura. - Uma regra muito importante: não podem dizer a ninguém que são viajantes do tempo. Não podem partilhar nada sobre a vossa linha temporal. Façam-no, e sofram as consequências.
- Tudo bem - disse o Horácio. - Só queremos ter a experiência de crescer nos anos 80. Não queremos perturbar a cronologia.
- Prontos? - perguntou o relógio.
Acenámos os quatro com a cabeça. O relógio estalou os dedos de madeira.
O que se seguiu eu tentarei descrever da forma mais precisa possível.
A experiência mais parecida seria estar no interior de uma máquina de lavar a roupa gigante em modo de centrifugação. Os meus órgãos saltaram como se eu estivesse numa montanha-russa supersónica. Vomitei. O meu vómito rodopiou e atingiu-me na cara. Não via nada à minha volta, apenas manchas e borrões de cores indistintas. Girei tão depressa que pensei que me ia desintegrar em milhares de pedaços sangrentos. Senti os meus membros a serem puxados em todas as direções. Gritei, e o meu grito reproduziu-se num milhão de ecos. Quando pensei que não aguentava mais, tudo parou.
Senti o chão duro debaixo dos pés.
Saímos da relojoaria para o beco (já não havia sinal do sem-abrigo que costumava dormir lá) e respirámos o ar da Náutila de 1984.
Circulámos pelas ruas da cidade. As pessoas conversavam umas com as outras, olhavam-se nos olhos enquanto comunicavam, estavam presentes no momento. Era difícil de acreditar que quarenta anos tivessem apagado isso. Havia um brilho nos olhares, os sorriso eram genuínos, e eu senti-me finalmente em casa.
A cidade parecia mais leve. O nevoeiro era o mesmo, carregava o cheiro a maresia, mas a atmosfera era diferente. Soube de imediato que queria sair nessa noite. Desfrutar dos prazeres noturnos de Náutila, sentir-me solto, fora da minha zona de conforto. Viver confinado a uma relojoaria (exceto curtas viagens à mercearia para comprar mantimentos) fechou-me numa bolha - o exterior era inóspito para mim, mas agora, o cheiro a aventura flutuava no ar e nunca me sentira tão pronto para abandonar a segurança.
Durante a tarde, fomos ver Videodrome no Cinema Cinistro e eu pude experienciar o filme pela primeira vez no grande ecrã, no próprio ano de lançamento. Depois, jantámos na pizzaria Arturo (que anos mais tarde deu lugar ao Restaurante Ondaciano), e em seguida visitámos o bar mais famoso de Náutila, o Inortodoxo. Ainda existe atualmente, mas perdeu grande parte do charme. Em primeiro lugar, já não há música ao vivo. Em 1984, todas as sextas-feiras eram noite de jazz, como anunciavam os cartazes colados no exterior.
Saímos da rua fria e húmida, onde o nevoeiro denso penetrava nos becos escuros como se quisesse testemunhar em primeira mão o que se passava naqueles cantos recônditos, e entrámos num mundo diferente.
O bar estava cheio de pessoas. O fumo de tabaco elevava-se em torvelinhos no ar (um dos escassos aspetos negativos desta década que entretanto foram extintos). Todas as cabeças estavam viradas para um estrado onde atuava uma cantora. Por cima da artista, um estandarte vermelho com letras douradas proclamava: ESTA NOITE: MELÂNIA, A RAINHA DO JAZZ.
Mal tive tempo de me focar no ambiente. Tudo na Melânia dominou imediatamente a minha atenção: uma mulher negra, num vestido amarelo-torrado, cabelo preto encaracolado, a cantar com alma. A voz dela era quente e inebriante, com notas ricas - um ímane sonoro que me impelia subconscientemente na direção dela. O vestido justo evidenciava-lhe cada curva do corpo voluptuoso, e os sapatos dourados de salto alto davam-lhe um ar imponente. Ao lado dela, um homem de smoking tocava saxofone. Aquela visão e a música fizeram-me sentir êxtase, deleite puro.
À esquerda do salão, no balcão, o barman servia três homens de gabardina com chapéus de veludo, que pareciam gangsters saídos de um filme noir dos anos 40. Os três homens tinham o olhar fixo na Melânia, completamente alheados dos copos que o barman enchia de uísque.
Tinha de chegar mais perto da Melânia. Precisava de estar na primeira fila. Testemunhar o talento dela o mais perto possível. Ser chamuscado pela aura tórrida dela. Furei por entre a multidão, sem me importar se os meus amigos me acompanhavam ou não.
Foi uma viagem longa, mas, após receber e distribuir muitas cotoveladas e encontrões, cheguei ao destino. E ali estava ela, um anjo a elevar-se sobre mim, e quando o olhar dela cruzou o meu, eu senti que tinha entrado no paraíso.
Mal senti o copo que os meus amigos me depositaram na mão uns segundos depois. Dei um gole sem me aperceber do que estava a beber. Senti o álcool queimar-me a garganta enquanto a Melânia cantava de olhos postos em mim. Olhos amendoados, da cor do cacau.
Ooooh entra no meu vale
Isto vale o que vale
Mas eu amo-te a valer...
A noite prolongou-se, e os meus sentidos entorpeceram à medida que eu bebia. Senti-me a levitar fora do meu corpo. O contacto visual entre mim e a Melânia tornou-se recorrente. Por fim, a atuação terminou, gerando uma onda de aplausos, e eu li os lábios dela quando se afastou do microfone e disse para o saxofonista: Preciso de uma bebida.
Desceu do estrado e passou por mim, dirigindo-me um sorriso, e eu aspirei o aroma que ela exalava: maçã assada com canela, acabada de sair do forno. Assobios seguiram-na quando ela passou por entre o público. Eu segui-a também, um tanto trôpego, até ao balcão, onde ela se sentou à beira dos homens de gabardina e chapéu, e vi o barman preparar-lhe um daqueles cocktails com uma sombrinha que eu acho que se chamam mai tais.
Havia um banco desocupado à beira dela, no qual me empoleirei. Cumprimentei-a, apresentei-me e fiquei a vê-la sorver o cocktail por uma palhinha. Estava vagamente ciente dos olhares dos três homens de gabardina postos em mim, mas só tinha olhos para a Melânia. Meu Deus, que criatura fascinante.
Pedi um uísque ao barman. Afoguei nele as minhas inibições.
A conversa e o álcool fluíam com facilidade. Entusiasmei-me e acabei por contar à Melânia algumas coisas que não devia ter contado. Estava a tentar impressioná-la. Por isso, naturalmente, contei-lhe que vinha do futuro.
- Dizes isso a todas as raparigas? - perguntou ela, com um sorriso um tanto tímido.
- Não, és a primeira.
- Prova-me - disse ela; e, por um momento de doce ilusão, pensei que ela queria que eu a beijasse. - Prova-me que vens do futuro.
Pensei. Qual seria a prova mais irrefutável de que eu não pertencia a esta década?
- No futuro - comecei - todos transportamos um telefone em miniatura no bolso. Mas é muito mais do que um telefone. Faz todo o tipo de coisas, e as pessoas tornaram-se viciadas nele. É uma realidade bastante deprimente.
Ela ergueu as sobrancelhas, tentando sondar se eu estava a ser sincero ou não.
Ela disse alguma coisa, mas eu não consegui discernir o sentido das palavras. O meu cérebro parecia estar a desligar-se. A minha visão estava desfocada, e senti uma pontada de desânimo quando deixei de conseguir ver a beleza exótica dela com nitidez.
Depois, perdi os sentidos.
Quando acordei, a primeira coisa que senti foi que tinha as costas e o traseiro molhados. As minhas mãos apalparam a superfície onde estava sentado. Cimento molhado.
Depois, abri os olhos. As minhas pálpebras nunca tinham estado tão pesadas. Tinha perdido uma lente de contacto, pelo que a visão do meu olho esquerdo estava desfocada. Havia alguma falha, porque eu lembrava-me de estar num bar, e agora estava... num beco? Sim, era um beco - não o da relojoaria - e eu estava entre dois contentores de lixo, e havia três figuras à minha frente.
Senti-me um pouco assoberbado, porque havia a sensação fria e molhada na minha pele, o cheiro nauseabundo do lixo, e a sensação de que algo estava tremendamente errado.
Por cima das três figuras, conseguia ver as nuvens escuras a pairar no céu noturno, entre dois edifícios altos de cada lado do beco. Na parede de um dos edifícios, um grafiti azul-turquesa dizia: NÃO É UMA CIDADE, É OUTRA DIMENSÃO!
- Bom dia - disse num tom jocoso um dos três tipos de gabardina que estavam no bar.
Tentei falar, mas a minha língua não colaborou. Era um peso morto dentro da minha boca.
- Estavas a dizer umas coisas interessantes no bar - disse a figura do meio, que tinha um bigode.
- E quisemos saber um pouco mais - disse o tipo da esquerda, que tinha uma franja loira a espreitar por baixo do chapéu de veludo.
- Fala - disse o primeiro, que tinha uma barba ruiva, e uma voz mais aguda do que os outros dois.
Para efeitos de praticidade, vou chamar-lhes Barba Ruiva, Bigode Negro e Franja Loira.
A minha língua ameaçou acordar, como um vulcão prestes a entrar em erupção. Mas a única coisa que irrompeu da minha boca foi uma torrente de vómito verde e fétido.
O Bigode Negro saltou para trás, porque o meu vómito tinha sido projetado para cima do sapato de couro dele.
O Barba Ruiva deu-me uma bofetada.
- Fala!
- Temos maneiras de te fazer soltar a língua.
- Vão-se... foder - cuspi.
- Vamos chamá-la - disse o Franja Loira. - Estou sem paciência para isto.
Os meus olhos apresentaram-me uma visão que não fazia muito sentido tendo em conta que estávamos em 1984: o Franja Loira tirou um telemóvel do bolso. Ouvi o sinal de chamada, e depois uma voz abafada de mulher.
- O cabrão precisa de incentivo - disse o Franja Loira, com os olhos claros pregados em mim. - Pode vir cá?
Acho que voltei a perder momentaneamente os sentidos, porque quando voltei a abrir os olhos, uma figura esguia estava a entrar no beco. Os saltos altos batiam no pavimento molhado. A silhueta da mulher estava recortada contra as luzes da rua. Trazia algo que parecia uma argola grande numa mão.
Quando ela chegou mais perto, eu vi que era uma mulher de meia idade com cabelo ondulado. Envergava uma gabardina rosa-choque e havia algo de estranho nos olhos dela. Não conseguia distinguir a cor deles na penumbra, mas não era um tom natural.
Acocorou-se à minha frente e levantou a argola que tinha na mão - que afinal não era uma argola - à frente dos meus olhos.
- Sê um lindo menino e põe a coleira para a Marissa.
Limitei-me a fitá-la, mudo.
Ela suspirou com impaciência, enfiou a coleira por cima da minha cabeça, e depois tirou algo do interior da gabardina. Uma espécie de comando. Premiu um botão e o meu cérebro crepitou com uma torrente de eletricidade. Tombei para o lado.
- Vais contar-me o que estás a fazer em 1984? - disse ela. - Ou tenho de fazer isto várias vezes até decidires dar com a língua nos dentes?
Ofeguei. Não conseguia falar. Ela voltou a eletrocutar-me.
- Fala! - berrou ela, pondo-se de pé.
- Fei... feitiço - baluciei. - Voltei... atrás... no tempo... Invoquei... Cronos...
- Interessante - disse ela, cruzando os braços e fitando-me com um olhar pensativo. - De que ano vens?
- 2025.
- Eu também! - disse ela, com o tom casual de quem acaba de perceber que partilhamos o mesmo signo. - Mas eu não fiz um feitiço. Queres saber como vim parar a 1984?
Abanei a cabeça. Não, não queria ouvir o que aquela cabra tinha para contar.
Ela contou na mesma.
- O meu marido, Krad, era um génio. Criou um supercomputador ao qual se podia ligar uma pessoa e transportá-la para dentro de uma realidade alternativa. Muitos indivíduos pagaram-lhe para ver o que acontecia às pessoas que ele transportava para essa realidade.
- Fascinante - tartamudeei.
Ela continuou como se não me tivesse ouvido.
- Ele usou esse dinheiro para financiar um projeto ainda mais ambicioso. Criou... - fez uma pausa para efeito dramático - uma máquina do tempo! Tinha-a na cave da nossa casa e proibiu-me de me aproximar dela. Depois, uma das pessoas que ele ligou ao supercomputador conseguiu acordar e matou-o. Fiquei a viver sozinha na nossa casa enorme, o Palácio Fúcsia. Já ouviste falar? É aqui perto. Adivinha o que fez uma viúva aborrecida com uma máquina do tempo na cave.
- Viajou no tempo - alvitrei.
- Bingo! - exclamou ela. - Voltei para a minha década preferida. Estou aqui há uns meses, a criar uma vida nova para mim. E agora apareceste tu, um forasteiro, a falar do futuro. Compreendes porque chamaste a atenção dos meus homens?
- Os teus homens?
- São meus parceiros. Temos um negócio bastante rentável. - Piscou o olho.
- Ah, sim? Qual?
Ela baixou o tom de voz para um sussurro teatral.
- Traficamos Kukunoko. É um peixe com substâncias psicadélicas, que apenas foi descoberto em 1992. Uma novidade para as pessoas de 1984. Aqui o Inti - apontou com o polegar para o Franja Loira - trabalha no Restaurante Ondaciano no ano de 2025. Conheci-o na primeira vez em que fui lá jantar e perguntei-lhe se queria ganhar um dinheiro extra. Ele entrou comigo na máquina do tempo e trouxe uma batelada de peixes do restaurante. O Igor e o Ivo são amigos que fizemos aqui e quiseram juntar-se ao nosso negócio. O Kukunoko é a droga do momento em 1984.
- Kukunoko! - gritou o Inti, abrindo os braços de modo teatral. - A moca que vem do futuro!
A Marissa riu-se.
- Consegues imaginar o dinheiro que as pessoas pagam por isso?
Eu ia responder que não, não conseguia imaginar, mas, nesse momento, a terra tremeu.
PUM. Uma pancada colossal, seguida de outra. PUM. Como um gigante a caminhar nas ruas de Náutila. PUM. Conseguia ouvir também o que parecia o repicar de um sino entre as pancadas.
A Marissa desequilibrou-se sobre os saltos altos e quase caiu. Um saco de lixo caiu de um dos contentores ao meu lado e aterrou no chão molhado com um chape. Os homens de gabardina olharam em volta, à procura da origem do tumulto.
PUM. O que quer que fosse, estava a aproximar-se. Eu sentia que estava num pesadelo. Não acreditava que, momentos antes, naquela mesma noite, estivera a falar com a Melânia e agora estava encurralado num beco por aspirantes a gangster, com uma coleira elétrica à volta do pescoço. E havia uma nova ameaça desconhecida que estava a demorar o seu tempo a tornar-se visível.
PUM. O meu coração nunca tinha batido com tanta força.
Eu queria levantar-me e fugir para um sítio seguro, onde quer que isso fosse. Mas, além de não confiar nas minhas pernas doridas, sabia que, mal me levantasse, a Marissa iria eletrocutar-me.
Por fim, alguma coisa monumental assomou à entrada do beco. De facto, era literalmente um monumento. A Torre de Náutila. O granito de que era feita tinha-se projetado em dois braços e duas pernas, o que lhe conferia um ar grotesco. O relógio da torre tinha ganho dois olhos e uma boca, tal como o relógio na cave da relojoaria do meu avô que tinha sido possuído por Cronos... Ah, merda.
A Torre entalou-se entre os dois edifícios que ladeavam o beco, bloqueando completamente qualquer hipótese de saída para mim, a Marissa ou os seus capangas. O som do granito a raspar contra o cimento ressoou contra os meus ouvidos.
- EU AVISEI-TE - rosnou Cronos numa voz gutural amplificada pelo tamanho da torre. Já não estava a possuir um pequeno relógio de madeira. Agora, a voz dele fazia tudo estremecer. Tapei os ouvidos com as mãos para reduzir a intensidade do som. - NÃO DEVIAS REVELAR QUE VIESTE DO FUTURO. AGORA, VAIS SOFRER AS CONSEQUÊNCIAS.
Senti o medo inundar-me, jorrar sobre mim como um manancial tenebroso. Os meus tomates encolheram. Parecia que o cimento molhado debaixo de mim tinha desaparecido e eu estava a cair num vácuo infinito.
- VOU ENVIAR-TE PARA 2084, ONDE NÃO HAVERÁ PROBLEMA SE FALARES DO TEU TEMPO. PORQUE, PARA ELES, O TEU TEMPO É UM PASSADO BEM REMOTO!
Rezei que aquilo não passasse de uma ameaça vã. Ele estava só a tentar assustar-me. Eu não queria de todo ver aquilo em que o planeta se tinha tornado num futuro tão distante.
O beco, a Torre, a Marissa e os capangas dela desapareceram num turbilhão. A Náutila de 1984 desvaneceu-se num borrão. Fechei os olhos com força. Estava tudo a girar de novo, como na primeira vez em que viajara no tempo. Vomitei outra vez, e o vómito foi sacudido de volta para a minha cara. Senti pedaços da pizza do Arturo na pele.
Quando o meio envolvente se reconfigurou e tudo ficou imóvel, mantive os olhos fechados. Tinha medo de enfrentar o futuro. Conseguia ouvir todo o tipo de zumbidos à minha volta. Por fim, cedendo à curiosidade, abri os olhos.
Oh, meu Deus, quem me dera nunca os ter aberto.
Máquinas. Máquinas em todo o lado. Sons eletrónicos, zumbidos monótonos fundidos numa orquestra mecanizada. Metal cobria cada centímetro do planeta. Não via o céu. Não via terra. Não via mar. Apenas robôs a circular, e todo o tipo de máquinas que não conseguia identificar.
A minha presença chamou a atenção dos robôs. Começaram a deslizar na minha direção - o som daquelas rodas a girar iria assombrar-me para o resto da vida... se eu vivesse. Os robôs agarraram-me e rasgaram a minha camisa.
Os olhos do robô que estava diretamente à minha frente iluminaram-se num tom vermelho e dispararam lasers contra o meu peito. Senti os lasers cauterizarem a minha pele. Aquilo durou talvez um minuto, mas cada segundo demorou uma eternidade lancinante. O cheiro a carne queimada elevou-se no ar rarefeito.
Quando os lasers se apagaram, baixei o olhar para o meu peito. Sete letras brilhavam em carne viva na minha pele.
E S C R A V O
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