Ainda não estás pronto(a) para as histórias mais densas de Náutila? Talvez seja melhor começares pelos Minicontos.
5 sustos mais curtos... mas extra fortes.
© 2025 Rui Péricles. Todos os direitos reservados.
A CARRINHA DOS GELADOS
Joel, Duarte e Gustavo tinham acabado de fumar um charro. Tinham fome, e o calor transformara as suas cabeças num chafariz de suor.
Quando ouviram a sirene da carrinha dos gelados, levantaram-se como se o cimento do passeio lhes tivesse dado um choque.
O catálogo de gelados estava estampado no lado da carrinha que estacionou à frente deles. Autocolantes revelavam o sabor de cada gelado: o roxo era de uva, o vermelho era de cereja e o laranja de pêssego. O trio pediu um de cada.
O que os rapazes não sabiam era que os autocolantes ocultavam os sabores verdadeiros: beladona, arsénico e cianeto.
O homem dos gelados - um senhor balofo de meia idade com cabelo grisalho e um sorriso largueirão - observou enquanto os rapazes tinham convulsões e espumavam da boca.
Quando caíram no chão, ele arrastou-os para dentro da carrinha e sentou-os no banco. Limpou-lhes a boca com um guardanapo, e depois colocou óculos de sol na cara de cada um, e um gelado na mão de cada um.
Tirou-lhes uma foto com o telemóvel e postou-a na página do Instagram da sua carrinha dos gelados, com a legenda: "ELES ADORAM OS NOSSOS GELADOS - TU E OS TEUS AMIGOS TAMBÉM VÃO ADORAR!!"
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OLHOS VERMELHOS
Catarina acordou às sete da manhã e desceu para tomar o pequeno-almoço.
Em cima da mesa, estava uma folha de papel dobrada que dizia: LÊ ISTO. MÃE.
- Claro - disse Catarina em voz alta, enquanto enfiava um pedaço de croissant na boca. - Quando tiver tempo para os teus dramas, mãe.
Enfiou o papel no bolso e saiu de casa.
Uma criatura seguiu-a o dia todo. Estava do outro lado da rua quando ela esperava pelo autocarro na paragem. Correu atrás do autocarro depois de ela entrar nele.
Mais ninguém parecia vê-la. Era um enorme pássaro preto com um longo bico amarelo e olhos vermelhos, a correr sobre duas pernas, como um Poupas do inferno.
Enquanto estava no autocarro, Catarina lembrou-se do papel que tinha no bolso. Tirou-o, abriu-o e leu-o.
QUERIDA CATARINA,
Um ano antes de nasceres, eu e o teu pai tivemos um acidente de carro grave. O teu pai estava às portas da morte. Um demónio apareceu na estrada e disse-me que o salvaria se eu lhe prometesse a vida do bebé que tinha no ventre.
"Dou-te treze anos com a criança", disse o demónio, "e no décimo terceiro dia após o seu décimo terceiro aniversário, irei buscá-la."
Esse dia é hoje, Catarina. Lamento.
Beijinhos,
Mãe
A Ave dos Olhos Vermelhos alcançou o autocarro, saltou para o vidro traseiro, partindo-o num milhão de pedaços, agarrou Catarina com as suas garras e bateu as asas gigantes, abrindo um buraco no teto do autocarro. Elevou-se para o céu, transportando Catarina.
Pelo menos, não terei de ir à escola, pensou Catarina, enquanto contemplava Náutila das alturas e fazia um vídeo em direto no Instagram.
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O HOMEM DE PALHA
As três bruxas reuniam no celeiro, em volta do Homem de Palha.
Jade inseriu o telemóvel de Gabi na ranhura que era a boca do Homem de Palha.
- O telemóvel - explicou ela às outras duas - é o objeto mais pessoal de alguém, e o recipiente da maior parte da sua energia. Isto indica ao Homem qual é a vítima dele.
Depois cortou a palma da mão com uma foice e sangrou para dentro da boca do Homem de Palha.
- E isto mostra-lhe quem manda.
O Homem levantou-se, pronto para levar a sua ordem a cabo.
***
Gabi não fizera grande coisa para se tornar uma vítima. Apenas recusara ser uma das "sombras" de Jade, como Dejanira e Dalila.
Nessa noite, estava sozinha em casa, no seu quarto, a atualizar o diário. "Perdi o telemóvel. Sinto-me incompleta", escreveu.
Um roçagar no corredor roubou-lhe o foco. Uma espécie de sussurro seguido de um baque. Repetitivo.
FFSSHHH. TUMP. FFSSHHH. TUMP.
Convencida de que estava a ouvir coisas, colocou os auscultadores nos ouvidos e voltou a escrever. Por isso, não viu nem ouviu o Homem de Palha a entrar no seu quarto.
Só sentiu os tufos de palha que eram os dedos dele a cravarem-se nos olhos dela.
O sangue escorreu-lhe pela cara, morno e pegajoso como chocolate quente.
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O SER
Carlos, de oito anos, estava deitado na cama, a ouvir a chuva e a trovoada lá fora.
De repente, uma luz inundou o seu quarto. Primeiro, ele pensou tratar-se de um relâmpago, mas o "relâmpago" continuou a brilhar.
Carlos saltou da cama e olhou pela janela. Um disco voador colossal pairava sobre o seu quintal das traseiras, reluzindo como se o sol tivesse descido à terra.
Com o coração acelerado, Carlos vestiu o robe, calçou as pantufas, desceu as escadas e saiu para o quintal.
O disco tinha aterrado. Um ser saiu do disco e começou a descer através de uma rampa metálica.
Era uma figura reptilínea. Parecia um híbrido de um camaleão, uma iguana e um dragão de komodo - mas de pé sobre duas pernas. Os seus olhos eram inteligentes e emotivos como os de um humano.
Dividido entre o fascínio e o terror, Carlos olhou o ser nos olhos.
A cara e o corpo do ser começaram a derreter e a borbulhar. As escamas deram lugar a poros.
Carlos estava agora a olhar para uma réplica de si mesmo, completa com robe e pantufas.
Dois outros seres reptilíneos sobressaltaram o rapaz ao sair a correr do milheiral atrás da sua casa. Agarraram Carlos pelos braços e, com uma força do outro mundo, empurraram-no para o interior do disco voador.
Enquanto o disco levantava voo, Carlos espreitou por uma janelinha redonda e viu a sua réplica, cada vez mais distante, a atravessar o quintal e a entrar em casa.
Na manhã seguinte, o ser estaria a tomar o pequeno-almoço com os pais de Carlos.
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A BICICLETA
Encontrei uma bicicleta numa venda de garagem. Atada ao guiador, tinha uma etiqueta que dizia: "ESTA BICICLETA VAI LEVAR-TE À VITÓRIA". Não pensei duas vezes - comprei-a.
Fui dar uma volta pelo bosque. As folhas castanhas estalavam agradavelmente debaixo dos pneus. A brisa despenteava-me o cabelo.
De repente, de trás de uma árvore, saiu uma mulher maltrapilha a correr. Tinha as roupas rasgadas, um sorriso insano e desdentado, e uma tatuagem que dizia VITÓRIA na testa. O cabelo dela parecia um arbusto queimado.
A Vitória atravessou-se à frente da bicicleta, e eu travei bruscamente. Reparei que ela tinha uma faca de mato na mão. Antes que eu pudesse desmontar da bicicleta, ela espetou-me a faca no peito.
Caí. A terra bebeu o meu sangue. A última coisa que vi foi a Vitória de pé sobre mim e o céu nublado cruzado pelos ramos esqueléticos das árvores.
© 2025 Rui Péricles. Todos os direitos reservados.
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