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Gerson e Adão estavam a perder seguidores no TikTok.
Precisavam de um sucesso.
A ideia radical de fazerem as suas receitas apenas de boxers tinha mantido o número de seguidores estável por uns tempos, mas depois as pessoas começaram novamente a perder o interesse.
Estar de roupa interior perante a câmara exigia a Gerson que estivesse sempre no auge da forma física. A vida era demasiado curta para passar tanto tempo no ginásio. Gerson não precisava de abdominais definidos quando as suas maiores armas de sedução haviam sempre sido os seus olhos azuis. Ele tinha trinta e cinco anos e uma filha; sentia que era justo ter aquilo a que os viciados em exercício físico chamavam dad bod.
Estes pensamentos fizeram-no agarrar com mais força o volante do carro que estava a conduzir. A cultura de fitness deixava-o nervoso.
Além disso, como muitas vezes dissera ao seu companheiro, Adão, não gostava de se sentir objetificado. Chef's Kiss, a sua conta em conjunto no TikTok, era sobre culinária. As coisas tinham, na opinião de Gerson, ido longe demais quando Adão elaborara a receita de crème brûlée sem lactose enquanto fazia uma dança lasciva em cima da mesa que, inacreditavelmente, contornara as diretrizes de segurança do TikTok.
Gerson dissera que tinha de haver outra forma de angariar seguidores que não envolvesse agir como strippers sedentos de atenção. Era humilhante.
Mais tarde, uma labiríntica incursão aos confins gastronómicos da Internet pusera-o a par de um curioso fenómeno na cidade costeira de Náutila: um peixe peculiar chamado Kukunoko, servido em exclusivo no restaurante Ondaciano.
Gerson soube de imediato que, devido às suas particularidades, este peixe era a solução para os seus problemas. Havia todas as possibilidades de se tornar viral na Internet. O tráfego na sua conta do TikTok atingiria proporções inéditas.
Este peixe muito especial era desconhecido no resto do mundo. Estava apenas à espera de alguém que lhe desse visibilidade suficiente. Gerson e Adão voltariam a ser populares com a cobertura de um prato tão inovador, e o restaurante Ondaciano receberia turistas de todo o mundo, cuja curiosidade fora aguçada com o vídeo do TikTok.
Gerson passava agora por um letreiro na margem da estrada que dizia: NÁUTILA.
Permitiu-se desviar por momentos os olhos do para-brisas, à frente do qual se estendia um céu lúgubre coberto de nuvens cinzentas que faziam do sol refém. Admirou mais uma vez a beleza do homem sentado ao seu lado, no banco do passageiro, e com quem escolhera passar a vida. Os seus dedos comicharam com vontade de lhe tocar na barba farfalhuda. Foi então que algo lhe chamou a atenção nas dunas arenosas que se sucediam em catadupa na janela do lado de Adão, como um filme que alguém está a avançar.
Alguém de pé, com os pés enterrados na areia, cabelos gordurosos a esvoaçar na brisa, e a segurar um cartaz que dizia em letras garrafais:
CUIDADO COM OS VOSSOS BEBÉS
Gerson colocou um pé no travão e o carro chiou até travar.
Adão, que estava a cochilar com a cabeça apoiada nas costas do assento, abriu os olhos sobressaltado quando a sua cabeça foi projetada para a frente.
- Gerson, que raio?
- Desculpa - disse Gerson - mas acho que vi algo ali atrás.
Adão virou a cabeça para trás, e Gerson fez o mesmo.
Gerson fez marcha-atrás com o carro alguns metros. Não havia sinal da pessoa com o cartaz nas dunas. Gerson contou a Adão o que vira.
- Deve ter sido imaginação tua – disse Adão. - Este sítio tem uma atmosfera que convida a devaneios.
Talvez, pensou Gerson.
Olhou para a filha bebé profundamente adormecida na sua cadeirinha no banco de trás, e pensou que não suportaria se alguma vez algo lhe acontecesse.
De repente, o cheiro a maresia que entrava pela janela aberta pareceu ganhar um tom acre.
O Ondaciano era um edifício pitoresco com uma fachada coberta de conchas.
O interior estava cheio com um cheiro reconfortante a marisco. Havia apenas uma mesa ocupada, onde um homem de meia-idade desfrutava da sua refeição solitária.
Um empregado de mesa musculado, com uma franja loira a cair-lhe sobre a testa, apressou-se a vir ao encontro de Gerson e Adão para os receber literalmente de braços abertos.
- Bem-vindos ao Ondaciano – disse o homem numa voz musical. - Eu sou o Inti, e serei o vosso empregado de mesa esta noite.
Gerson prestou atenção ao olhar do homem, à espera de ver uma centelha de reconhecimento. A fama era uma pequena droga, e Gerson dava por si a precisar de novas doses recorrentemente.
Mas o homem só tinha olhos para a pequena bebé que Gerson segurava nos braços.
- Como se chama esta linda pérola? - perguntou ele, inclinando-se de modo a que o seu olhar ficasse ao mesmo nível dos olhos da bebé.
- Gigi – respondeu Gerson.
- Prazer em conhecer-te, Gigi!
O homem conduziu-os a uma mesa num canto e apressou-se a trazer uma cadeirinha de criança para Gigi. Depois afastou-se, o traseiro a abanar dentro das calças justas.
- Adão, já sei o que quero para a sobremesa – disse Gerson, olhando para o traseiro do empregado.
- Gerson, comporta-te – repreendeu Adão, mas o seu olhar dirigiu-se ao mesmo sítio.
Um minuto depois, Inti dirigiu-se à mesa deles com um cardápio. Acendeu a vela azul no centro da mesa com um isqueiro. Começou a estender o cardápio, mas Gerson ergueu uma mão para o deter.
- Vamos querer filetes de pescada com arroz para a Gigi - pediu - e, para nós, a especialidade da casa.
Os olhos de Inti arregalaram-se, iluminados, e um sorriso travesso curvou-lhe os lábios.
- Kukunoko?
Gerson assentiu. Explicou a razão de ele e Adão estarem ali e perguntou se Inti estava disposto a ser filmado enquanto apresentava o prato.
- Terei de pedir autorização ao chef – disse Inti – mas, em princípio, não haverá problema. Publicidade gratuita é sempre bem-vinda!
- Inti, vamos fazer de si uma estrela – disse Adão.
Gerson deu-lhe um pequeno pontapé por baixo da mesa.
Inti sorriu novamente e dirigiu-se à cozinha.
Gigi tinha colocado o guardanapo de pano em cima da cabeça como uma peruca improvisada, e ria-se e batia palmas.
Quando Inti regressou, não só trazia o aval do chef, como a melhor garrafa de vinho – por conta da casa. Disse-lhes que o Kukunoko estaria pronto dentro de um quarto de hora.
Quando Inti voltou com uma bandeja nas mãos, Adão apressou-se a filmar com o telemóvel. Gerson fez um sinal a Inti para começar a falar, e ele fê-lo, enquanto pousava a bandeja na mesa.
- Kukunoko é um peixe com duas particularidades distintas – disse ele, com um à-vontade impressionante à frente da câmara. - Em primeiro lugar, ele é invisível quando está no mar. As escamas reagem ao sal na água para o camuflar dos predadores. Como podem imaginar, é desafiante para os pescadores apanharem-no, e o método de captura é um segredo bem guardado aqui em Náutila.
Inti olhou para Adão e Gerson em busca de aprovação, e os seus sorrisos inspiraram-no a continuar com uma confiança redobrada.
- A segunda característica que torna este peixe tão especial – continuou ele - são os efeitos psicadélicos que provoca em quem o come. - Inti arriscou uma piscadela de olho. - O seu estatuto alucinogénico conferiu-lhe uma tremenda popularidade, e pessoas de todo o país vêm a Náutila para provar esta iguaria alucinante. Kukunoko! - gritou ele, abrindo os braços de modo teatral. - A moca que vem do mar!
Gerson fez um círculo com o indicador e o polegar, e dirigiu a Inti um sorriso radiante, que fez o peito do empregado inchar de orgulho. Adão filmou a bandeja onde o peixe cerúleo jazia em todo o seu esplendor, num leito de algas wakame e rodeado de batatas assadas douradas.
Enquanto Gigi debicava os filetes, Gerson e Adão filmaram a sua reação ao provar o peixe. Gerson sentiu-se um pouco tonto. Era como um ator pornográfico a simular mais prazer do que realmente sentia em frente à câmara. Era uma reação exagerada, mas era isso que as pessoas gostavam de ver.
Mas a verdade era que o sabor do peixe era divinal. Findas as filmagens, Gerson pôde recostar-se e degustar o peixe como uma pessoa normal.
Com um filete pendurado na boca, Gigi esticou a sua mãozinha para a travessa do peixe e Adão apressou-se a afastá-la do seu alcance.
- Desculpa, Gigi, comida para crescidos.
Gerson apercebeu-se de que Adão tinha um pedaço de alga na barba espessa, e ia alertá-lo para este facto quando reparou em algo insólito.
A barba de Adão estava a mexer-se - a ondular. Cada pelo revolteava como uma minhoca dançante. Uma vaga de náusea revirou o estômago de Gerson.
Sentiu a cara ficar quente. Depois, o calor deu lugar a uma sensação líquida. Gerson sentia agora a pele a derreter como cera, a liquefazer-se, e a escorrer como um efeito prático num filme de terror dos anos oitenta.
O pânico instalou-se. Levantou-se de um salto e correu para a casa de banho. Tinha de se ver ao espelho. No caminho para a casa de banho, sentiu a pele borbulhar e rebentar em pequenas explosões viscosas. Cobriu o rosto, não fosse alguém vê-lo caído em tamanha desgraça.
- O papá já vem - balbuciou para Gigi, que continuava a mordiscar o filete sem entusiasmo.
Quando Gerson voltou à mesa, ainda um pouco lívido, mas mais calmo após o espelho lhe garantir que a cara dele não estava realmente a derreter, não havia sinal de Gigi nem de Adão.
Adão entrou de novo no restaurante, esfregando as mãos uma na outra para as aquecer depois de estar exposto ao frio na rua, e Gerson correu para ele.
- Onde está a Gigi?
- Ela ficou cá dentro - disse Adão, de olhos arregalados ao ver que tanto a cadeirinha de bebé como a própria Gigi tinham desaparecido. - Fui só atender uma chamada rápida da minha mãe lá fora, a Gigi estava a fazer muito barulho...
Gerson não esperou que ele acabasse de falar. Virou-lhe costas e dirigiu-se ao empregado, que estava indolentemente de pé em frente à cozinha com um sorriso ausente no rosto.
- Onde está o homem que estava ali sentado? - perguntou, apontando para a mesa previamente ocupada pelo homem de meia-idade.
- Nélson Teixeira? - disse Inti. - O Presidente da Câmara? Pagou a conta e foi-se embora.
Gerson e Adão fizeram uma busca minuciosa ao restaurante. Não havia sinal de Gigi na cozinha, nas casas de banho, nem na despensa.
Quando Gerson saiu para a rua, estava a hiperventilar. Fitou as estrelas e escutou o sussurro das ondas do mar para não deixar o pânico assoberbá-lo.
- Vamos encontrá-la - disse-lhe Adão com uma voz trémula, pondo-lhe uma mão firme no ombro.
Gerson queria seguir Adão para dentro do carro, mas os seus pés pareciam ter-se fundido com o alcatrão da estrada. A noite girava à sua volta num torvelinho de candeeiros de rua desfocados. A última coisa de que se lembrava era de Adão a dizer:
- Merda, deixei o carro aberto.
Depois, a sua mente deve ter sido sugada para um vácuo, porque quando Gerson se deu conta, já estava no lugar do passageiro. O ar que entrava pela janela do carro em andamento refrescava-lhe o rosto afogueado.
- Preciso que abras bem os olhos - disse Adão, olhando para as dunas de cada lado da estrada. - Ela pode ter saído do restaurante e deambulado.
Gerson esbugalhou os olhos - e reparou num papel que estava aos seus pés.
GRUTA, diziam umas letras garrafais no papel, que pareciam ter sido rabiscadas com um lápis de cera preto.
Apanhou o papel e mostrou-o a Adão.
- Adão, acho que temos de ir à praia.
As nuvens tinham engolido a lua, mas a sua presença ainda era sentida.
Gerson e Adão descalçaram-se para correr mais depressa sobre o areal.
O mar negro ondulava, como a cortina de um teatro a tapar uns bastidores escuros e profundos. Gerson sempre achara o oceano assustador. Era divertido fantasiar sobre criaturas míticas como sereias quando era criança, mas, à medida que crescia e a sua curiosidade dava lugar à ansiedade, começara a imaginar todo o tipo de colossos e titãs que poderiam habitar sítios como a Fossa das Marianas, tendo escapado à deteção humana desde o início dos tempos.
Ao fundo da praia, havia uma gruta recortada nas rochas. Uma luz bruxuleante iluminava o interior. Gerson e Adão correram para lá, tropeçando várias vezes na ânsia de lá chegarem.
As paredes da gruta eram húmidas e luzidias. A areia debaixo dos pés descalços dos dois homens estava dura e molhada. A gruta não era muito funda, pelo que avistaram o seu fim mal entraram.
Vários recortes de jornal estavam afixados no fundo da gruta, em frente a cerca de cinquenta velas acesas. Havia velas altas e finas cuja base tinha sido enterrada na areia para se manterem de pé, e velas baixas e grossas que estavam simplesmente pousadas nela. A cera derretia e escorria, tal como as lágrimas quentes na cara de Gerson.
Gerson e Adão aproximaram-se do fundo da gruta. Gerson limpou os olhos para ler os recortes de jornal. Eram do Notícias de Náutila.
NAUFRÁGIO DE BARCO CAUSA DERRAME RADIOATIVO
2 de novembro de 1992
Ontem, ao fim da tarde, o navio Mastodonte, que cruzava a costa de Náutila transportando material radioativo ultra-secreto, naufragou ao largo da baía em circunstâncias desconhecidas.
A radiação emitida pelo material em questão é do tipo beta, o que significa que pode afetar organismos aquáticos, causando danos celulares e mutações. Este tipo de radiação pode penetrar a pele humana e provocar queimaduras caso se entre em contacto com a água contaminada.
As autoridades proíbiram o acesso público à praia, colocando vários sinais de perigo radioativo no areal. Quem entrar na praia arrisca-se a pagar uma coima avultada.
É improvável que tenha havido sobreviventes do naufrágio. Quinze pessoas seguiam a bordo do navio, mas, devido à natureza secreta da carga que transportavam, as suas identidades não foram reveladas. Não serão efetuadas buscas de resgate devido à contaminação da água.
Realizaram-se de imediato testes à água e estima-se que o tempo máximo para a dissipação e desintegração natural da radiação beta seja de um ano. O acesso à praia apenas será retomado quando os níveis de radiação beta caírem o suficiente.
Gerson leu os recortes seguintes. De algum modo, as coisas ficaram ainda mais estranhas.
MONSTRO MARINHO AVISTADO AO LARGO DA BAÍA DE NÁUTILA
15 de dezembro de 1992
A esquadra de Náutila tem recebido dezenas de relatos de avistamentos de uma criatura desconhecida na costa da cidade.
O Notícias de Náutila falou com a testemunha mais proeminente, cujo relato é, de longe, o mais detalhado e bizarro. Por motivos de privacidade, a testemunha decidiu manter o anonimato durante a nossa entrevista, pelo que vamos referir-nos à mesma como Rita.
Rita passava de carro ao lado da praia durante o crepúsculo. «Deviam ser umas cinco horas», revela-nos. «Vi movimento na praia pelo canto do olho e achei estranho porque, como toda a gente sabia, o acesso estava interdito. Mesmo antes de virar a cara, soube que não era uma pessoa, porque era simplesmente grande demais.»
Rita encostou o carro junto às dunas e saiu do veículo para ver melhor. «Parecia um amontoado de algas com vida própria», conta-nos a testemunha abalada, «é a melhor descrição que posso dar. Além das algas, havia resíduos e lixo, como plástico. E muitos crustáceos agarrados. Uma amálgama de material orgânico e entulho. Fiquei horrorizada».
Rita soube imediatamente que a criatura a vira («embora não tivesse olhos, tanto quanto me apercebi») quando começou a avançar para a mulher aos tropeções. «A coisa saiu da água e começou a subir o areal na minha direção. Eu estou grávida e o meu primeiro instinto foi afastar-me o mais depressa possível daquela criatura para manter o meu bebé em segurança. Entrei no carro, acelerei e só parei quando estava em casa».
Rita trancou todas as portas e não conseguiu dormir nessa noite. No dia seguinte, ligou para a esquadra a comunicar o sucedido.
Não foi a única. Até à data de fecho desta edição, a esquadra de Náutila tinha já recebido um total de 23 relatos, todos eles igualmente vindos de testemunhas em pânico.
- Esse monstro alimenta-se de bebés - disse uma voz feminina atrás de Gerson. - De nove em nove meses.
Gerson virou-se e, na entrada da gruta, sob o luar prateado que penetrava a camada de nuvens no céu, viu uma mulher de aspeto desgrenhado. Adão colocou-se defensivamente à frente de Gerson.
A mulher começou a avançar para o interior da gruta e Gerson sentiu o corpo ficar tenso.
- Quem é a senhora?
- Chamo-me Cláudia - disse ela. - Era eu que estava nas dunas com aquele cartaz. Fui eu quem deixou o pedaço de papel no vosso carro. Sei que estão em pânico e querem encontrar a vossa filha, por isso vou tentar ser o mais sintética possível.
À medida que ela se aproximava, Gerson conseguiu discernir-lhe melhor as feições. Cláudia tinha a pele anemicamente pálida e o cabelo untuoso como se alguém lhe tivesse despejado azeite em cima. Vestia uma túnica que em tempos devia ter sido branca, mas agora estava imunda e esfarrapada. Os pés descalços tinham unhas compridas. A luz das velas acentuava-lhe as olheiras fundas debaixo dos olhos.
Gerson não precisava de estar perto dela para saber que a mulher cheirava mal. No entanto, quando ela parou a um metro dos dois homens, a suspeita foi confirmada. Um misto de suor, ovos podres e animal morto desprendia-se dela e violentou o nariz dele. Gerson sentiu o Kukunoko a revirar-se no estômago, como um peixinho a nadar num aquário.
A mulher tinha um punho cerrado, e Gerson perguntou-se se ela estaria a esconder algo dentro dele.
- Estive em cativeiro durante vinte e dois anos - disse Cláudia. - Em casa do Presidente da Câmara. Ele fez um acordo psíquico com o monstro radioativo. Em troca de um bebé recém-nascido de nove em nove meses, o monstro faria com que vários cardumes de Kukunoko dessem à costa. E esse peixe tornou o restaurante Ondaciano num sucesso tremendo.
Gerson e Adão permaneceram em silêncio, e ela continuou:
- O turismo é importante para uma cidade como esta. Por isso, o Presidente raptou-me quando eu tinha dezoito anos. Agora tenho quarenta. Tenho vivido presa em casa dele, onde ele me viola de nove em nove meses para procriar um bebé que servirá de alimento ao monstro. - Fez uma breve pausa. - Eu fugi da casa do Presidente. Causei um aborto a mim mesma e o Presidente ficou sem bebé para oferecer ao monstro. Desesperado, raptou a vossa menina quando a viu no restaurante. Ela será o alimento do monstro dentro de meia hora.
- Partindo do princípio que tudo o que acabou de nos dizer é verdade - disse Gerson, inseguro - o que podemos fazer?
Aquela mulher afirmava saber o que tinha acontecido à sua filha. Louca ou não, era uma pista que ele estava disposto a seguir.
- Uma noite, a cozinheira do Presidente estava a preparar-lhe uma dose de Kukunoko em casa. Tirou as ovas de dentro do peixe. O cão do Presidente comeu as ovas durante a noite. No dia seguinte, era um cachorro.
Adão riu-se. Não havia um pingo de alegria naquele riso, era puro escárnio.
- Gerson, não vamos mesmo dar ouvidos a esta lun...
Gerson levantou uma mão.
- Adão, cala-te e deixa-me ouvir.
- As ovas tornam quem as come num bebé. Vamos obrigar o Presidente a comê-las, e ele será o bebé que o monstro irá devorar em vez da vossa filha. Ele deve estar quase a chegar.
De repente, o som de um bebé a chorar - amplificado e distorcido - ecoou pela praia. Gerson, Adão e Cláudia correram para a entrada da gruta.
O Presidente da Câmara de Náutila estava no meio do areal. Gigi estava no colo dele, a chorar, e ele segurava um megafone em frente à boca dela, fazendo o choro dela propagar-se em direção ao mar.
- Aquilo é a campainha do jantar para o monstro - disse Cláudia.
Abriu finalmente o punho que mantivera fechado até então: estava cheio de ovas negras de Kukunoko.
- Como vamos fazer com que ele engula isso? - disse Gerson.
Uma parte da história de Cláudia provara-se verdadeira, e ele esperava que o resto não fosse uma fantasia delirante.
- Vocês seguram-lhe os braços e eu enfio-lhe esta merda pela goela abaixo - disse Cláudia, fitando Gerson com o olhar desiludido de quem se vê obrigado a explicar algo que é óbvio. - Prontos? Aos três, começamos a correr.
O sangue de Gerson estava a ferver. Ver a sua filha de três anos a chorar nos braços de um homem que a raptara para a sacrificar despertara em si um desejo de vingança primitivo. Queria assistir ao fim daquele homem.
Antes que Cláudia pudesse fazer a sua contagem, uma massa disforme começou a sair do mar. Agigantou-se lentamente sobre o areal, até atingir uma altura tão descomunal que Gerson pensou que iria furar as nuvens com a sua cabeça - se é que se podia chamar "cabeça" ao topo do corpo do monstro.
- Cresce mais a cada bebé que come - disse Cláudia. - Não era assim tão grande há uns anos atrás. Eu fui uma das testemunhas que o viu em 1992.
Adão segurou a mão de Gerson.
- Preparem-se - disse Cláudia. - Três, dois, um...
Correram. Correram como se uma fortuna estivesse à espera na meta e o vencedor ficasse com ela.
O Presidente não os viu nem ouviu a chegar. Estava demasiado intimidado a olhar para o colosso que se erguia à sua frente e os seus ouvidos estavam cheios do choro da bebé.
Aproximaram-se dele por trás. Gerson conseguiu arrancar Gigi dos braços do Presidente e fugiu com ela ao colo, pousando-a na areia a uma distância segura do Presidente. Depois, voltou e agarrou-lhe o braço direito com força enquanto Adão lhe tirava o megafone e manietava o braço esquerdo. O megafone caiu na areia com um baque surdo.
Atras das costas do Presidente, Cláudia esticou o braço e enfiou-lhe as ovas na boca. Enfiou-as bem fundo, até os seus dedos tocarem na úvula dele. Sentiu as ovas viscosas desprenderem-se dos seus dedos e deslizarem pela garganta do homem.
Durante um momento, não aconteceu nada.
O Presidente apenas se engasgou e tossiu.
Depois, começou a encolher.
Por um momento, Gerson perguntou-se se ainda estaria a ter alucinações provocadas pelo Kukunoko.
O homem grisalho que estivera à sua frente desaparecera dentro do smoking que tinha vestido. Um bebé contorcia-se, a chorar, no meio das roupas.
Cláudia tirou-o de dentro do fato e colocou-o no areal, em frente ao monstro. Uma pequena onda varreu a areia, molhando o rabo do Presidente bebé.
Gerson olhou melhor para o monstro. Era composto maioritariamente por algas, mas havia muitos moluscos e crustáceos agarrados, e plástico - tanto, tanto plástico! - e uma quantidade infindável de máscaras da pandemia de 2020.
O monstro inclinou-se. Não rugia, não bramia, não emitia qualquer ruído - o único som que provocava era um barulho molhado das algas a roçar umas noutras. Um buraco abriu-se naquilo que seria a cabeça do monstro se ele fosse anatomicamente correto. O buraco aumentou de tamanho, abrindo-se cada vez mais sobre o Presidente bebé.
Gerson teve de se recordar que aquele não era um bebé inocente. De facto, nem sequer era realmente um bebé. Era um monstro humano que havia regredido à sua forma mais antiga. Não estava a chorar - o seu pequeno cérebro continha pensamentos de um homem adulto.
Gerson nem sequer estremeceu quando o bebé desapareceu no interior do buraco que se abrira na cabeça do monstro. A criatura começou a recuar para trás, afundando na água. O seu apetite fora saciado por mais nove meses.
Quando o monstro foi engolido pelo oceano, Gerson viu algo a brilhar na água.
Centenas de coisas prateadas chapinhavam à luz da lua. Peixes. Cardumes inteiros de Kukunoko tinham dado à costa. Saltavam na água rasa, as guelras a abrir e a fechar em vão, as caudas a bater freneticamente.
Gerson pegou em Gigi e abraçou-a com uma força com que nunca a abraçara antes. Olhou para Adão, que estava a filmar a cena toda com o telemóvel.
- Bem, isto deve trazer-nos seguidores - disse.
- Ainda bem - disse Cláudia. - Isto precisa de ser exposto. Alguém tem de fazer algo em relação a este monstro.
Quando Adão acabou de filmar, abraçou Cláudia. Gerson admirou-o por ele ser capaz de suportar o cheiro sem se retrair. O papá tem narinas de ferro, pensou, beijando a cabeça de Gigi.
- Lamento que tenhas passado por tudo o que passaste - disse Adão ao ouvido dela. - Não consigo imaginar.
Cláudia retribuiu o abraço, a soluçar. Devia ser o primeiro abraço que recebia em vinte e dois anos.
- Quem acham que vai fazer algo em relação a isto? - perguntou Gerson. - A Marinha? A Guarda Costeira?
Adão e Cláudia separaram-se. Cláudia limpou as lágrimas e esfregou o nariz.
- Não é problema nosso.
Sentaram-se no areal, exaustos, e viram o sol nascer. Nunca, em toda a sua vida, Gerson vira um amanhecer tão belo. Tinha a filha segura nos braços. O homem que amava estava sentado ao seu lado. Tinham uma sobrevivente com eles, e tinham-se livrado do homem que abusara dela durante mais de duas décadas.
- O que aconteceria se um bebé comesse as ovas do Kukunoko? - perguntou Adão de repente. - Acham que se transformava num zigoto?
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